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Se eu soubesse agora

 Se eu soubesse agora
O que só saberei
Ano que vem,
De tudo que possa ser,
Seria nenhum.

Não sei do que veio antes,
Só vi, não aprendi — vivi.
E o que escrevo hoje,
Não sei se hoje veio a mim.
Talvez escreva do amanhã
E não de onde vim.

Velho sentimento,
De velho morreu com o tempo.
Visto luto enquanto luto
Pra que caia no esquecimento.

Quero te ter comigo,
Sensível bem do amor.
Só não sei se é possível
Que seja eu teu benfeitor.
Te criei com tanto zelo,
Tanto quanto fui capaz.
Enquanto tive não pude tê-lo,
Enquanto tendo não tive paz.
Eu tanto fiz pra lá de ti,
Que tu se fez sem que eu te visse.
E quando vi que te perdi,
Não adiantou que lhe pedisse.

Vem, colhe as flores,
Parte quando chegarem os espinhos.
Quem sabe lidar com rosas
Não vive nunca sozinho.
Quem não sabe ser raiz
Tem que nascer passarinho.

Embaixo da barba pouca,
A boca, nela a língua
Afoita, fala sem que valha.
Que embaixo do bafo
Do cigarro de palha,
Trago o gosto do vento
Da tarde passada.
Ventava na árvore velha,
Que um belo bailar bailava.
Lembrando-me, atrasada,
Que na vida o vento leva
Almas desenraizadas.

Montei minha tenda nesse canto,
Daqui não quis sair.
Meditava um dia enquanto
Me disseram pra partir.
Fiz um canto pra guardar
As lembranças desse teto.
Minha tenda me deu lar,
Quem partiu foi o lugar,
E meu canto foi deserto.

Moça em corda bamba
Desfila concentração.
Desviaria o olhar
Se soubesse minha intenção?
Moço que faz samba,
Rock ou oração,
Faz ou finge tentar
Solos de solidão.

Quantos anos se passaram
Desde que soube ser o fim?
Hoje, um dia faz
Que percebi,
Já estava em mim.

Meu signo de terra
Faz brotar o que se planta.
Desabrochado estava o fim
Quando dele me dei conta.

Entre o ronco do motor,
Os gritos da cidade cinza,
Cada ser é um senhor,
Cada senhor é uma vida.
Cada vida, uma vivência
Que uns julgam experiência.
Eu vivo calo e suor,
É o que trago na essência.

Do ontem não tenho nada,
De hoje ainda não sei.
Mas como posso esperar ter algo,
Se quando tive me ceguei?
Cores, calor, sabores,
É só o que vejo, sinto e provo.
Tudo intimamente nas dores,
Por saber que na dor me renovo.
E sendo novo, outros amores,
Um novo ciclo, novos atores.

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