Perder você de vista
foi o pior erro que poderia cometer.
Corri pela praça, a olhar pelos bancos,
procurando um brinquedo novo.
Deitei pelos campos,
esperando a nuvem que trouxesse sombra.
Zanzei pelas portas entreabertas,
a ver mistérios que não me encantaram.
E de que servem os mistérios
que não nos encantam?
O som se aquietava e a luz esmaecia,
minha vista, sem que eu desse conta,
fugia pelos cantos a te procurar.
Dei por mim, sentado à beira da rua,
esperando que viesse ao meu encontro.
Se a noite quer fazer alguém chorar,
ela abaixa o volume das coisas
até que se ouça a voz de quem não está,
mas a gente queria que estivesse.
Lembrei que acordei um dia
e imaginei que não seria tão ruim
se o tempo fosse infinito.
Percebi que isso só teria sentido
se eu não pudesse te perder de vista.
Catei o que ainda me restava de esperança,
bati a poeira e ajustei os chinelos.
Andei, sabe-se lá pra onde, andei —
e ainda ando.
Como uma caravana de um homem só.
Como um missionário sem missão.
Como um veterano que retornou da guerra,
mas não se recorda a própria casa.
Ando, pois, ainda que ande bem,
com a cabeça erguida de quem anda bem,
com os passos de quem sabe andar
e não tem que provar isso a mais ninguém,
preciso continuar andando.
Preciso porque, sem você,
não sei chegar em casa.
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