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Descobri-me um escravo voluntário

Descobri-me um escravo voluntário, Destruindo-me para que o nada se erguesse. Feito muito como se isso fosse pouco, Feito pouco como se fosse meu melhor. Martelando o dia inteiro, construindo calos, Para, à noite, arrancá-los com uma turquesa, Como se arrancasse os motivos de viver. Jogando pedras, pra que pensem que me tornei louco, Justificando os fracassos que ainda vou cometer. Ouço as vozes do mundo, mas só elas falam. Meu próprio veneno num frasco que engoli, Sendo meu inimigo em cada briga íntima. Brigo comigo e ganho, mas o prêmio é vazio. Cada nova esquina sou a vítima Que ergue as mãos e diz: "Perdi". Perco-me nas ruas que invento, Procuro o céu e já não vejo céu algum. Escrevo. Ah, o diário! A confissão inútil. Aceito excessos porque temo ser esquecido, Tenho medo de não me tornar necessário. Neguei meu nome na praça, Recusei créditos que não me trariam nada. Mas os enganos, aceitei todos de bom grado. Eu, que nunca imaginei ser digno do amor, Quando recebi p...
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Se eu soubesse agora

  Se eu soubesse agora O que só saberei Ano que vem, De tudo que possa ser, Seria nenhum. Não sei do que veio antes, Só vi, não aprendi — vivi. E o que escrevo hoje, Não sei se hoje veio a mim. Talvez escreva do amanhã E não de onde vim. Velho sentimento, De velho morreu com o tempo. Visto luto enquanto luto Pra que caia no esquecimento. Quero te ter comigo, Sensível bem do amor. Só não sei se é possível Que seja eu teu benfeitor. Te criei com tanto zelo, Tanto quanto fui capaz. Enquanto tive não pude tê-lo, Enquanto tendo não tive paz. Eu tanto fiz pra lá de ti, Que tu se fez sem que eu te visse. E quando vi que te perdi, Não adiantou que lhe pedisse. Vem, colhe as flores, Parte quando chegarem os espinhos. Quem sabe lidar com rosas Não vive nunca sozinho. Quem não sabe ser raiz Tem que nascer passarinho. Embaixo da barba pouca, A boca, nela a língua Afoita, fala sem que valha. Que embaixo do bafo Do cigarro de palha, Trago o gosto do vento Da tarde passada. Ventava na árvore...

Colher de açúcar

  Acordo e vivo, Fujo das indagações do que é ser, Como se fugindo não me indagasse em silêncio. Da inconsciência me vieram elas, Fugazes ideias divinas, Que brilharam no céu da minha cabeça. No fundo, na nuca; uma pena, Estava eu a olhar pela janela do olhar. Vigiava o que imaginavam outros, E neles, feito estrelas, brilhavam. Do céu da nuca, cadente, ao céu da boca, Fez-se real: aquilo que parecia distante. Mas real ao ponto de ser tato? Tenho em mim, quase como Pessoa, Todos os sonhos do mundo, exceto os que não sonhei. — E isso os torna menos reais, afinal? Esses sonhos — tantos, tão reais — Por não serem realizados, tateados, Devem ser descartados? Deve-se atentar às coisas reais, Como o papel, que não tem valor algum Se não fosse o que escrevo nele? Se não escrevo nas linhas que o tempo exige, Na folha reciclada, fruto da era moderna, o que é esse papel senão uma ideia do passado? Se coloco aqui meus pensamentos, Serão eles agora verdadeiros como nunca foram, Enquant...

Momento raro de compreensão

Quanto mais próximo do extremo, mais retorno ao meio. É confuso. A vida é como os fungos no centeio. Eu não sei falar de mim, não sei onde me encontro. O meio em que vivo me escapa. Escrever, agora, é tentar entender, Porque quem escreve aos outros já não escreve mais. Como é difícil ser humano e aceitar a normalidade! A visão da vida é simples demais: poucos anos para muita existência. Nem tudo precisa ter sentido, nem tudo precisa ter sequência, A vida não se organiza; ela desorganiza a gente. Eu me confundo entre a verdade e o poeticamente falando, Sinceramente, nem sei ao certo qual a diferença. Pela primeira vez, talvez eu não aja como se alguém me olhasse. Se sentir só neste mundo é o que o mundo todo anda procurando? E se era só a onda de um sax numa base de rap, será que entendi a vida? Eu volto à música, a onda se repete — momento raro de compreensão. Gasto meus neurônios como se gastasse tudo o que tenho, Compreendo que para eles é o fim. E por segundos, o fim não me assus...

Sina

Serei eternamente grato ao teu desejo de me fazer melhor, mas acredito que seguir sozinho é mesmo a sina de quem vive. Não derramarei jamais a mesma gota de suor, nem terei novamente um momento que já tive. Enquanto isso, vou ver coisas Que no meu caminho Irei ver só.

Perder você de vista

Perder você de vista foi o pior erro que poderia cometer. Corri pela praça, a olhar pelos bancos, procurando um brinquedo novo. Deitei pelos campos, esperando a nuvem que trouxesse sombra. Zanzei pelas portas entreabertas, a ver mistérios que não me encantaram. E de que servem os mistérios que não nos encantam? O som se aquietava e a luz esmaecia, minha vista, sem que eu desse conta, fugia pelos cantos a te procurar. Dei por mim, sentado à beira da rua, esperando que viesse ao meu encontro. Se a noite quer fazer alguém chorar, ela abaixa o volume das coisas até que se ouça a voz de quem não está, mas a gente queria que estivesse. Lembrei que acordei um dia e imaginei que não seria tão ruim se o tempo fosse infinito. Percebi que isso só teria sentido se eu não pudesse te perder de vista. Catei o que ainda me restava de esperança, bati a poeira e ajustei os chinelos. Andei, sabe-se lá pra onde, andei — e ainda ando. Como uma caravana de um homem só. Como um missionário sem missão. Como u...