Pular para o conteúdo principal

Momento raro de compreensão

Quanto mais próximo do extremo, mais retorno ao meio.
É confuso. A vida é como os fungos no centeio.
Eu não sei falar de mim, não sei onde me encontro.
O meio em que vivo me escapa.
Escrever, agora, é tentar entender,
Porque quem escreve aos outros já não escreve mais.

Como é difícil ser humano e aceitar a normalidade!
A visão da vida é simples demais: poucos anos para muita existência.
Nem tudo precisa ter sentido, nem tudo precisa ter sequência,
A vida não se organiza; ela desorganiza a gente.

Eu me confundo entre a verdade e o poeticamente falando,
Sinceramente, nem sei ao certo qual a diferença.
Pela primeira vez, talvez eu não aja como se alguém me olhasse.
Se sentir só neste mundo é o que o mundo todo anda procurando?
E se era só a onda de um sax numa base de rap, será que entendi a vida?
Eu volto à música, a onda se repete — momento raro de compreensão.

Gasto meus neurônios como se gastasse tudo o que tenho,
Compreendo que para eles é o fim.
E por segundos, o fim não me assusta mais.
Neste momento, tudo se completa, tudo se inicia —
O ciclo gira, só quem está disposto presencia.

Nem tudo tem explicação. Não preciso de aprovação.
Não torço o nariz para quem não entende, não torço para que me entendam.
Eu sou só mais um corpo, um reflexo.
O tempo vai passar, e nós viraremos lembrança,
Um parágrafo esquecido de um livro velho.

Vontade tenho de fazer como um poema que termino sem saber o início,
Sem explicação, sem razão, sem contexto.
Sem saber o que veio, ou o que virá.
De certo, torço para que tudo tenha vindo do coração,
Porque é bom pensar que existe algo mais.
Ser só um ser pensante pode contentar, penso até quando.
Me descontentei há tanto tempo, sigo como quem olha da lateral
E não sente pressa nenhuma de entrar em campo.

E, se for possível, vou aguardar o tempo se esgotar,
Sem apressar o depois, sem tentar entender o que vai ser.
Por mais que negue, eu seguirei, e a gente segue, por mais que sangre.
Que certeza tenho além de que tudo vai pra frente?
A vida é só um passo que eu dei, sigo só, com a certeza do desconhecido,
E quando o pé tocar o chão, quem sabe eu não perceba que avancei.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perder você de vista

Perder você de vista foi o pior erro que poderia cometer. Corri pela praça, a olhar pelos bancos, procurando um brinquedo novo. Deitei pelos campos, esperando a nuvem que trouxesse sombra. Zanzei pelas portas entreabertas, a ver mistérios que não me encantaram. E de que servem os mistérios que não nos encantam? O som se aquietava e a luz esmaecia, minha vista, sem que eu desse conta, fugia pelos cantos a te procurar. Dei por mim, sentado à beira da rua, esperando que viesse ao meu encontro. Se a noite quer fazer alguém chorar, ela abaixa o volume das coisas até que se ouça a voz de quem não está, mas a gente queria que estivesse. Lembrei que acordei um dia e imaginei que não seria tão ruim se o tempo fosse infinito. Percebi que isso só teria sentido se eu não pudesse te perder de vista. Catei o que ainda me restava de esperança, bati a poeira e ajustei os chinelos. Andei, sabe-se lá pra onde, andei — e ainda ando. Como uma caravana de um homem só. Como um missionário sem missão. Como u...

Descobri-me um escravo voluntário

Descobri-me um escravo voluntário, Destruindo-me para que o nada se erguesse. Feito muito como se isso fosse pouco, Feito pouco como se fosse meu melhor. Martelando o dia inteiro, construindo calos, Para, à noite, arrancá-los com uma turquesa, Como se arrancasse os motivos de viver. Jogando pedras, pra que pensem que me tornei louco, Justificando os fracassos que ainda vou cometer. Ouço as vozes do mundo, mas só elas falam. Meu próprio veneno num frasco que engoli, Sendo meu inimigo em cada briga íntima. Brigo comigo e ganho, mas o prêmio é vazio. Cada nova esquina sou a vítima Que ergue as mãos e diz: "Perdi". Perco-me nas ruas que invento, Procuro o céu e já não vejo céu algum. Escrevo. Ah, o diário! A confissão inútil. Aceito excessos porque temo ser esquecido, Tenho medo de não me tornar necessário. Neguei meu nome na praça, Recusei créditos que não me trariam nada. Mas os enganos, aceitei todos de bom grado. Eu, que nunca imaginei ser digno do amor, Quando recebi p...