Descobri-me um escravo voluntário,
Destruindo-me para que o nada se erguesse.
Feito muito como se isso fosse pouco,
Feito pouco como se fosse meu melhor.
Martelando o dia inteiro, construindo calos,
Para, à noite, arrancá-los com uma turquesa,
Como se arrancasse os motivos de viver.
Jogando pedras, pra que pensem que me tornei louco,
Justificando os fracassos que ainda vou cometer.
Ouço as vozes do mundo, mas só elas falam.
Meu próprio veneno num frasco que engoli,
Sendo meu inimigo em cada briga íntima.
Brigo comigo e ganho, mas o prêmio é vazio.
Cada nova esquina sou a vítima
Que ergue as mãos e diz: "Perdi".
Perco-me nas ruas que invento,
Procuro o céu e já não vejo céu algum.
Escrevo. Ah, o diário! A confissão inútil.
Aceito excessos porque temo ser esquecido,
Tenho medo de não me tornar necessário.
Neguei meu nome na praça,
Recusei créditos que não me trariam nada.
Mas os enganos, aceitei todos de bom grado.
Eu, que nunca imaginei ser digno do amor,
Quando recebi pela manhã sua visita,
Deixei-o entrar, servi-lhe um copo,
Mas sabia que, como tudo, seria breve.
Falamos até tarde nossas fantasias,
Fizemos um poema e planejamos outros.
Nunca estive tão feliz como naquele dia.
Foi tão difícil na hora da despedida.
Rastejei, senti ali que era o homem mais fraco.
Eu fiz de tudo pra que tudo desse errado.
Quando consegui, não soube mais o que fazer,
Não planejei o próximo passo, era um abismo.
Ignorei os cadarços; eles não fizeram o mesmo.
Quando fui de joelhos no chão, era tarde pra ver.
Comentários
Postar um comentário