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Colher de açúcar

 Acordo e vivo,
Fujo das indagações do que é ser,
Como se fugindo não me indagasse em silêncio.

Da inconsciência me vieram elas,
Fugazes ideias divinas,
Que brilharam no céu da minha cabeça.

No fundo, na nuca; uma pena,
Estava eu a olhar pela janela do olhar.
Vigiava o que imaginavam outros,
E neles, feito estrelas, brilhavam.

Do céu da nuca, cadente, ao céu da boca,
Fez-se real: aquilo que parecia distante.
Mas real ao ponto de ser tato?

Tenho em mim, quase como Pessoa,
Todos os sonhos do mundo, exceto os que não sonhei.
 — E isso os torna menos reais, afinal?

Esses sonhos — tantos, tão reais —
Por não serem realizados, tateados,
Devem ser descartados?

Deve-se atentar às coisas reais,
Como o papel, que não tem valor algum
Se não fosse o que escrevo nele?

Se não escrevo nas linhas que o tempo exige,
Na folha reciclada, fruto da era moderna,
o que é esse papel senão uma ideia do passado?

Se coloco aqui meus pensamentos,
Serão eles agora verdadeiros como nunca foram,
Enquanto permaneciam na minha cabeça?

Ainda que em português,
Sendo que me entendem melhor os mineiros,
Serei real aos estrangeiros?
Serei, aos que não entendem meu idioma,
Tão mal-entendido quanto aqueles tantos
Que não entendem meus sonhos?

Ser poeta é mais do que escrever em papel.
E eu sou poeta?
De acordo com o banco: um número.
De acordo com o carteiro: o moço do número cem.
Aos meus pais, que me veem segundo o catolicismo:
Alma com esperança aos céus,
Possibilidades do inferno,
Medo do real,
Contrário do mal,
Sonho.

As ruas mudam, meus passos permanecem os mesmos.
Até a maçaneta da porta do quarto dos fundos,
Com o tempo, tornou-se mais fácil de manusear.
Eu continuo casmurro.

Tiro uma colher de açúcar e a tombo no café.
Adeus ao que não volta: quanto mais mexo nas coisas,
Mais me sinto a colher.

O que não vai é o que vejo, pois fico.
Revolvo a vida como quem procura a volta,
Revolto à vista de que todo soluto não volta.
E me pergunto: o que se fez do que deixei em cada corpo
Que adocei — e hoje amarga a ausência desse doce em mim.

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